Portugal Dakar Challenge – Sara no Sara, seis mil quilómetros depois

Quando chegou o convite para participar no Portugal-Dakar Challenge, anunciada como “a corrida solidária mais louca do mundo” (e organizada pela Global Share Eventos em parceria com a Fundação AMI), só me veio à cabeça um objectivo:  ir. Claro que, para tal, também pesou a questão solidária (alguns participantes ofereciam o seu veículo no final da viagem, outros contribuíam através da inscrição e participação), seguida logo de uma premente preocupação: aguentaria o nosso ligeiro veículo tal odisseia?

Éramos quatro pessoas e um bem rodado Fiat Punto SX 75 (a transpirar com o peso da bagagem) com perto de 6000 quilómetros para percorrer, do Cartaxo a Dakhla (Sara Ocidental) — o “Dakar” manteve-se no nome da prova, já que esse era o destino inicialmente planeado; mas foi alterado por razões logísticas e de segurança. Mala feita, máquina fotográfica na mochila, outra no bolso, caneta e caderno para escrever e desenhar, mal podia imaginar como me marcaria acordar no deserto, guiar durante horas a fio por estradas inóspitas, olhar com deslumbre para as montanhas do Atlas ou vaguear pelas ruas e ruelas labirínticas.

3, 2, 1…

Ainda em Portugal, registo os quilómetros que o carro marca: 205.144. Estamos no Cartaxo, um dia depois do Natal, prontos para a partida frente ao Museu do Vinho (curiosamente, tal como o destino final foi alterado, também a partida, antes marcada para Coruche, se mudou para aqui).

Depois de algumas primeiras apresentações e informações, chega a altura de dividir as equipas em grupos, para promover e facilitar a entreajuda. Ao nosso Punto, juntaram-se dois UMM, um Land Rover Discovery e um Suzuki Jimny. Tudo corria sobre rodas, excepto um detalhe: o proprietário da nossa viatura não conseguiu obter o seu passaporte a tempo da partida oficial colectiva. Depois de nervosismos e correrias, partimos sem ele em direcção ao Algarve e combinámos encontrá-lo em Tavira. Quando finalmente chegou, já a caravana de carros e motas tinha partido e entrado em Marrocos. Era um primeiro percalço, mas seguimos confiantes. Destino: Fez.

Entrados em Marrocos, trocamos os primeiros euros por dirhams e, após Tânger, o cansaço faz-se sentir: a primeira noite é passada mesmo no carro. Depois de tanto quilómetro, soube a hotel de cinco estrelas e com direito a um impressionante nascer do sol, com o perfil negro de vinhas e oliveiras e, à beira da estrada, os braços estendidos de gente a tentar conseguir uma boleia. Depois da solidão da nossa equipa, conseguimos por fim apanhar o resto do grupo e continuamos viagem, agora todos juntos.

Este grupo de cinco veículos não tem grande apetência para corridas mas de solidário, sublinhe-se, tem tudo. É quase sempre o último a cortar a meta das etapas diárias (o que é marcado com carimbo num “passaporte”) e tem por decidido que quando é preciso parar, pára-se. Seguimos para Ifrane — a “Suíça”do Atlas, com um envolvimento urbanístico fortemente europeu. Passamos por Azrou, com a floresta de cedros e uma colónia de macacos habituados a serem fotografados. Só não convém colocarmo-nos entre um macaco e um amendoim…

Vou fazendo uma experiência paralela: entrar em todos os cibercafés que vou encontrando e que abundam nas cidades e aldeias mais centrais. Mas escrever uma frase que seja torna-se uma batalha hercúlea: ou as teclas estão em árabe ou trocadas do nosso teclado habitual qwert. Passamos pelas gargantas do Oued Ziz. A vista entre as gargantas e o vale é fabulosa. Ao longe, continuamos a avistar a nevada cordilheira central do grande Atlas. Aos nossos pés, uma estrada que perfura um vale desértico e áspero. Para melhorar a vista, desfrutamos do final de tarde. Pôr do sol, chouriço a assar, algum vinho e a primeira recordação, em pleno silêncio, da beleza de Marrocos.

A atracção seguinte são as dunas do Erg Chebbi, junto à aldeia de Merzouga. Para os mais curiosos, há a possibilidade de montar um dromedário ou, para os mais corajosos, aventurar-se pelas movediças dunas que requerem força de pernas mas devolvem uma vista panorâmica inesquecível. A noite é passada num acampamento berbere. O frio sente-se mas o céu, incrivelmente estrelado, compensa qualquer arrepio. De manhã, ouvem-se histórias de quem ficou a conviver durante a noite com o guia berbere, que tinha opiniões muito fortes sobre o Facebook. Dizia ele que até já teve um perfil nessa rede social, mas deixou de ter, sublinhando uma lição moral: não era correcto ter tantas “amigas” virtuais. Afinal de contas tem noiva: uma portuguesa, por sinal.

À moda do Paris-Dakar

Na maior parte das etapas, houve rali à moda do Paris-Dakar. Passamos por aldeias quase desertas, construídas com tijolos de terra secos ao sol e, quase sem nos apercebermos, esventramos pistas de areia e pedra. Ao longo das etapas, vamos percebendo o truque para levarmos o nosso pequeno Punto a bom porto: afastarmo-nos um pouco dos 4×4 e acelerarmos nos troços de areia. Além de servir para não ficarmos atolados, era diversão garantida. Mas, muitas vezes, a aceleração perdia terreno para os contratempos técnicos. Como os frequentes atolamentos. Mas, sempre que acontecia, ninguém se importava de estar no meio do nada, muitas vezes já de noite, a empurrar os 4×2 ou mesmo os pesados 4×4, tendo por única luz a dos faróis. E assim, de aceleração a contratempo, chegamos a Fort  Bou Jerif.

Novo acampamento berbere para provar a fabulosa harira (sopa marroquina) ou as tagines (assado de cabrito, frango ou vaca, com vegetais). A acompanhar, cabrito assado na fogueira e café de máquina (cortesia portuguesa), para quem fizesse fila. Assim o fizemos, alguns polícias marroquinos também. Começa o novo ano. A paisagem das montanhas é trocada por rochas — em certos aspectos, quase lunar. Continuamos a passar por aldeias e acampamentos nómadas em locais onde não esperávamos encontrar ninguém. É uma das inúmeras belezas de Marrocos: a surpresa que cada quilómetro nos oferece. As crianças acenam ao mesmo tempo que correm atrás dos carros a pedir bonbons ou cadeaux stilo, enquanto outras se divertem a fabricar uma espécie de lombas para atrasar os carros e assim continuarem os seus pedidos.

Vamos em direcção a Smara, já no Sara Ocidental, com paragem em Tan-Tan para almoço. Um jovem marroquino pergunta se lhe podemos vender álcool. Explica-me que não lhes é permitido beber, mas que quer fazê-lo. Prefere as cidades principais: Casablanca, Agadir ou Fez porque se torna mais fácil arranjar “álcool e mulheres”. Respondo-lhe que não tenho e pergunto-lhe sobre as suas tatuagens. Tem pelo tronco e pernas tatuagens tipicamente ocidentais. Uma delas salta à vista com a frase, em inglês, “ninguém me pode julgar, excepto Deus”. Encolhe os ombros e diz que simplesmente gosta de tatuagens.

Ocidental Sara

Entramos no Sara Ocidental. A viagem varia entre terreno árido, alguns muros de terra (as antigas linhas defensivas marroquinas contra a Frente Polisário) e as poucas árvores que se tornam o único abrigo nas pequenas paragens. Foi-nos dito que havia dois hotéis em Smara: “um mau” e “um muito mau”. A maior parte das equipas conseguiu ficar no “mau”.

Para os mais sensíveis, esta é a altura de saltar de parágrafo. A sanita foi um entupido buraco no chão, as janelas uma quimera e a única entrada de ar era pela porta do quarto. As camas pouco convidavam ao descanso e os lençóis deixavam a desejar, mas a solução foi simples: saco de cama e toalha ou casaco como almofada. Tudo o resto são pormenores passageiros.

Smara revela-se uma cidade, no mínimo, desafiante. As ruas parecem estreitos quelhos, vêem-se diversos sem-abrigo e não mostra, de longe, a beleza do Sara. O hotel onde ficámos (o Amine) tem um bagageiro holandês. Perguntei-lhe porque estava ali. Não percebi a resposta; o seu inglês deixa muito a desejar, e o meu árabe ou holandês são inexistentes. Mas repete váriasvezes — de forma empolgante — que a melhor cidade é Fez. Ali, em Smara, sente-se preso. De manhã, a troco de uma pequena comissão, arranjamos um guia para nos levar a uma oficina e soldar o apoio das barras do tejadilho, que entretanto se tinham partido.

No decorrer da viagem, os principais problemas com que os 4×2 e os 4×4 se depararam foram pneus e cárteres furados; jantes, apoios das barras de tejadilho partidos, panelas de escape e suspensões partidas; tubos de gasolina partidos ou furados; sobreaquecimento e depósitos de água rebentados. No entanto, para algumas das equipas, o maior problema foi mesmo a máquina de café não funcionar ligada ao carro. Na oficina, novamente a conversa sobre a noite e prostituição, desta vez em relação a Agadir. Nota-se um desejo pela liberdade mas toda a conversa foi realizada em tom de sussurro e as palavras saem num tom rápido e intenso.

Abandonamos Smara, escoltados à distância pela polícia marroquina, com destino a Dakhla e direito a passar os próximos dois dias no deserto. Desengane-se quem acha que são dunas lindíssimas de um laranja arrebatador. Esta parte do deserto é árida e relembra algumas paisagens alentejanas mais secas. Percorremos as pistas balizadas do Paris-Dakar sem praticamente ver vivalma. Passamos pela aldeia de Bir Anzarane mas é-nos barrada a entrada pela polícia marroquina que, ao longo da viagem, até se revelou uma presença simpática e prestável: os polícias ajudaram a empurrar o nosso Punto atolado em areia e, numa dormida no deserto, a desarmar e arrumar uma tenda que ninguém conseguia perceber como fazer. Há tendas que são um mistério.

Cortar a meta

Por fim, Dakhla. Juntamente com outra equipa, optamos por dormir num parque de campismo, a três quilómetros da cidade. Depois de toda a aridez do deserto, estamos a vinte passos do mar e, na manhã seguinte, somos despertados pelo rebentar das ondas a chamar-nos para o fim da nossa corrida solidária. No areal da baía de Dakhla, todos os veículos participantes neste rali deram o seu melhor mas ninguém conseguiu bater o Subaru Forester(4×4) e o Toyota Corola (4×2), dignos vencedores. Com o fim desta corrida simbólica, começou a contagem decrescente para o fim da nossa participação neste challenge.

Mas o regresso ainda dá direito a passagem por El Ouatia e Marraquexe. Na primeira cidade, decidimos provar camelo, já que faz parte da gastronomia local e estamos decididos a conhecer o país através de todas as suas expressões culturais. Não que não tenha vacilado… Antes de experimentar a iguaria, perguntei pelo seu sabor a alguém que já a tinha provado. Responderam-me: “Quem come camelo, percebe que está a comer camelo”. E assim é. A carne não é má, nem deliciosa. É camelo.

Já sem as pressas do rali, chegamos por fim a Marraquexe, a primeira cidade que conseguimos visitar na sua plenitude, sem ter de ir a correr para outra etapa da prova. Aqui, todas as equipas que se inscreveram (na categoria baptizada de Touareg), entregaram as viaturas à organização que, por sua vez, trataria de as remeter para as entidades marroquinas, e os participantes voltaram de avião para Portugal. Não é o nosso caso, que precisamos do veículo, inclusive para regressar. Por isso, deixamo-nos apenas encantar pela cidade, verdadeiramente sedutora.

A algazarra dos turistas, os tambores que permanecem como banda sonora constante, os vendedores de sumo de laranja, o aroma intenso das especiarias, os encantadores de serpentes ou as barracas de comida que nos chamam e tentam seduzir com piadas ocidentais. Um turista, a dar ares ao galã de Hollywood, é atraído com o comentário “Bruce Willis, come here, Bruce Willis”. Uma zanga entre duas barracas de comida que disputam outro turista acaba com um majestático “Porqué no te callas?”, para regozijo de todos os presentes. Marraquexe é assim, faz-nos subitamente sorrir.

A Praça Djema el-Fnaa absorve-nos e incentiva-nos a perdermo-nos nas labirínticas ruelas da medina. Todos os sentidos ficam em alerta e a imaginação flutua. Dizem que se pode tornar confuso. Não é… se simplesmente vaguearmos. Havemos de chegar a algum sítio. Em último caso, encontra-se um táxi (existem dois tipos, o petit para um máximo de três pessoas e o grand, que leva seis pessoas, nem mais nem menos) e voltamos em segurança ao local que desejamos. Com Marraquexe a deixar saudades, arrancamos para a derradeira etapa, a do regresso a Portugal, já sem tempo para grandes paragens ou aventuras.

Durante toda a viagem, um pensamento persiste: Marrocos é, realmente, mágico. Depois de muitas horas ao volante, eis que nos surge Lisboa. Estacionamos. O Punto marca 211.596 quilómetros. Oficialmente, fizemos 6452 km em 15 dias, mais de 400 por dia. Voltava a partir já amanhã.

[Texto publicado no jornal Público [Fugas] a 29 de Janeiro de 2011]


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s